Lembro-me de quando escrevi sobre o Mika. O nome dele apareceu-me por acaso, lá na comunidade do Orkut, sem eu antes tê-lo lido por aí. Mesmo porque aqui no Brasil ele ainda era recente, seu álbum estava para ser lançado na Europa, naquele mês - era Fevereiro do ano passado. Ao ler mais sobre ele, chamou-me atenção sua formação musical, era um tanto inusitada pro segmento e fui instigado por isso. Procurei saber mais a respeito dessa formação, enquanto o álbum dele já estava sendo puxado, via eMule.
Download completed e então encantei-me ao ouvir o resultado, mesmo ficando claro, já na primeira audição, que se tratava de alguém inteligente aplicando uma boa fórmula num segmento de pessoas carentes, que é a cultura pop. (Algo contra isso, Denis? Por favor, você, saiba que não entrarei nesse mérito, aqui. Entendamos a cultura pop pelo que sabemos comumente dela, sem avaliações mais profundas). O lance que pegava àquela altura - e que é objeto desse meu texto - era qual seria a repercussão desse hype aqui no Brasil. Perceba comigo.
O que fiz foi ouvir sem preconceitos o álbum e acabar por adorar todas as canções, sem receio de estar cedendo à técnica de atrair ou cultivar fiés, que a igreja do pop possui (sim, há gente que fala tanto contra o pop que deve acreditar tratar-se de uma instituição com fins religiosos). Hoje, visto o que se seguiu após o lançamento de Life In Cartoon Motion, desde a reação dos adoradores freaks dispensáveis até as investidas contra dos críticos severos de tudo que “dá certo” e “funciona”, está um sujeito que não é tão bom cantor quanto parecia ou esperávamos que fosse (ok, ele não alcança notas mais altas sem desafinar, tá certo. Mas também há um grau de expectativa, em relação às suas qualidades, que para cantores quaisquer de bandas que gostamos sequer cogita-se avaliar, pense nisso), mas que alicerça ainda mais o poder do pop no patamar do qual nunca saiu, a saber, o reflexo das necessidades humanas (temporais) de consumo, tendo em vista desde a experiência estética, cara aos críticos e artistas, até o mero entretenimento, barato à massa.
Mika está na fronteira, entre o que seria bom e com valor estético acima da média e o que é simplesmente “ok, bacana” de se consumir, seja por sua leveza, alegria ou pouca exigência de interpretação. Suas músicas podem ser frutos (apenas?) de boas fórmulas, suas letras serem, entre outras coisas, mensagens baratas de otimismo, ele pode não cantar tão bem quanto aqueles nos quais se espelha (ou se assemelha), porém nada disso importa frente ao encanto que ele desperta quando você termina de ouvir todo o álbum (e tomo por base aqui os números de venda do seu primeiro álbum e o culto, na Europa, ao seu trabalho e, claro, várias opiniões de pessoas próximas, durante esse tempo todo). Talvez porque o que ele tem de ruim não desperte o senso (crítico) comum. Mas, ao mesmo tempo, e talvez por isso, o que ele tem de ruim não impede que qualquer um goste de ouvi-lo. Permita-me um paralelo. Muitos dizem detestar Coldplay, por motivos parecidos com os que eu dei aqui a respeito do Mika (fórmula fácil, letras não tão boas, cantor má o meno), mas esses mesmos muitos não deixam de se emocionar, comover ou sentir algo movimentar suas sensações ao ouvirem uma daquelas canções que os caras produzem muito bem. Truque? Técnica de marketing? Estratégia estética? Perguntas erradas.
Há uma crítica musical (especializada ou não) que gosta de apontar o que não é bom e não faz bem aos ouvidos, muitas vezes não partindo de algum princípio e critério válido claro (estético, ideológio, cultural, político, ou whatever), “avisando” aos ouvintes sobre o truque que estão lhes aplicando, pois bem, é essa crítica que também precisa entender o porquê disso que ela nega e contesta despertar nas pessoas o que, hoje, uma obra de arte se esforçaria para alcançar, mesmo com um crítico por trás defendendo e explicando esta, entre parênteses detonando aquela. A ascensão do pop vem na mesma medida que a decadência crítica, porém essa avaliação só é verdadeira se o crítico se colocar do lado daquilo tido como culto e belo, contra o que representa um desvio de caminho para a bela arte, que seria o atalho do pop. Vestir o pop com essa roupagem acaba atuando como um desserviço à crítica musical, aí partidária de uma esquerda estética, manja como?
E eu só estou falando isso tudo (e como consumidor, pois não sou crítico, nem jornalista) por dois motivos. Um, porque tenho lido cada vez mais o quanto não possuímos uma crítica musical competente (e isso dito por jornalistas sobre jornalistas) e, dois, porque passou um ano, desde que o álbum do Mika chegou aqui, e notei que a velha oposição entre o pop e o “alternativo” (palavra triste, pois é vazia de significação, hoje) continua descaradamente falsa e é disseminada pelos que estão à margem, e que ficam à margem, muitas vezes (e isso explica muita coisa) porque não têm opção, se é que você me entende. Esses, ao contrário dos que se mantêm à margem por convicção, pra mim são os que acabam misturando as coisas, tecendo comparações obtusas e confundindo aqueles que eles querem atingir mais do que os elucidando. Não há oposição aqui, entre esses segmentos, e os rótulos (em detrimento dos gêneros, uma pena) estão batidos ao mesmo tempo em que proliferam sem sentido, bem como as crenças estéticas de pessoas que praticam a crítica em casa, na escola ou no trabalho, pois em sua maioria essas crenças são alimentadas pelo gosto pessoal, o que desvia o foco de uma análise compromissada e responsável, tendo como resultado um discurso vazio e desatualizado, afinal, o momento histórico no qual vivemos exige muito mais da crítica e o que tem faltado a ela é justamente o que o baluarte do pop possui, a inteligência.
Eu digo a nós críticos (especializados ou amadores) pra olharmos para o pop sem as lentes do alternativo, a pose do artista, ou qualquer meio que não justifique o fim. Pois não se chega ‘lá’ sem passar por ‘aqui’. A fortaleza do pop é grande e extensa, exploremos-na, pois as portas sempre estiveram abertas, nós sempre estivemos sob suas cercanias e a cultura ocidental nunca deixou de ser alimentada pelos seus ditames.
ps.: eu falo da crítica especializada quando cito o que ouço e leio dos jornalistas (não possuo conhecimento de campo), porém como esse texto é escrito por alguém que é um simples consumidor que emite opinião, deixo claro que ele pretende mais falar aos comuns a mim do que à crítica especializada. Pelo fato dos papéis muitas vezes se misturarem e a fronteira não ser clara, sinto-me à vontade pra falar em termos que se servir a ambas as “categorias”, melhor.
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Denis Pedroso
















Gente, eu ouço “love today” e”lollipop” do Mika, TODOS OS DIAS!!!!
pra mim ele é uma das maisores se não a maior revelação de fim de 2007.
sem dúvida!