“Um estranho casal”. Talvez a referência à peça de 1965 (que três anos depois virou filme), no título do 2º álbum da dupla, seja menos importante que o significado da expressão. Vida individual? Carreira juntos? Realidade? O que eles querem nos dizer?
Ao ouvir o novo álbum, seja por quais motivos forem que Danger Mouse e Cee Lo optaram pelo título, aliado à arte retrô da capa, está claro que se inspiram em sentimentos tão contemporâneos quanto sua própria música expressa desde St. Elsewhere: desamparo, angústia, esperança, incertezas, procura constante por sentido…
“I don’t understand how I’m so understanding. I guess that that’s all I can be” (Charity Case”), “Freedom is confusing me. Still I try I never know what to do” (Going On), “All I’m saying is sometimes I’m more scared of myself” (Run).
St. Elsewhere já apresentava a direção. Agora, em The Odd Couple, você tem apontado um sentido. Esses dois caras percorrem as vias estreitas da essência humana mais ordinária, pra mim isso está claro. Eu posso não entender suas motivações, muito menos as circunstâncias nas quais vivem e criam. Se em Baltimore ou Atlanta seus amigos sofrem desse desalento, o qual incita a dupla expelir em forma de música e em tom de clamor por respostas.
Eu posso também não entender direito sequer as letras das músicas que eles cantam ou as origens das sonoridades que os influenciam. Mas, o ritmo que as conduz, o compasso em que se expressam aliado ao vocal por vezes desesperador e animado de Cee Lo, toda essa harmonia musical que encontramos na obra, isso tudo ultrapassa fronteiras de tradução e cultura e nos alia como seres humanos em constante vai e vem à procura de sentido nos fatos, relações, realidade, como você queira, como você sinta, como você se questione.
E é procurando essa voz consonante que leio o título das faixas “Charity Case, Who’s Gonna Save My Soul, Going On, Run, Would-Be Killer, Open Book, Whatever, Surprise, No Time Soon, She Knows, Blind Mary, Neighbors, A Litte Better” e encontro-a expressa, ainda que velada. Ouço as músicas e, com esforço, estreito meu entendimento para o que tentam transmitir-me de modo tão bem feito.
Sem sombra de dúvida, um álbum para se ouvir repetidamente, sem expectativas nem juízo, apenas pelo prazer de suas músicas. E, aos poucos, conforme essa voz consonante passe a falar mais contigo ou for se tornando inaudível, na mesma medida em que os juízos forem sendo feitos, uma boa coisa que importa foi termos mantido contato e dado atenção a um belo trabalho musical, quer gostemos ou não, afinal, temos andando tão carentes de direção, que atualmente se deparar com um álbum ouvido do começo ao fim já é algum indício de sentido.
Se, além disso, esse álbum nos disser algo, seja através dos autores ou de nossas próprias vozes internas, teremos resistido à esquizofrenia cotidiana, resistido à impaciência de se dedicar a prestar atenção a todo um trabalho e, melhor, nos permitido acessar, via percepção, bem ou mal, o caminho ao que nos é mais intuitivo, lá onde se fazem os melhores juízos, habitam os mais belos sentimentos e onde se encontram nossas paixões, desejos e esperanças reunidos. Teremos visitado esse lugar tão negligenciado pelo tempo escasso da modernidade. Lugar aludido e visitado em Going On, Run e outras faixas, de Odd Couple até St. Elsewhere.
ps.1: pra download, na comunidade.
ps.2: quis já escrever sobre o álbum, até precipitadamente, pois como não sou jornalista, então preferi escrever sobre minhas imprecisões mais imediatas, sem racionalizar muito o trabalho deles. Por gentileza, permitam-me as digressões e estejam à vontade para o mesmo ;)
| 2.5 |
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Denis Pedroso

















Na comunidade, tá rolando um link pro álbum em qualidade melhor que a que tem sido posta por aí. No mais, que músicas fodas! Reúne tudo que eu gosto em soul, r&b, hip hop…