Lykke Li

Texto escrito por Marcus Vinicius Brasil, para o rraurl.1

Lykke Li

Já está quase provada, ainda que não cientificamente, a teoria de que o pop escandinavo se encontra dentro de uma bolha de vidro, perdido num limbo de tempo/espaço inclassificável. Isso porque, mesmo que a cena musical de lá não seja nenhuma novidade e esteja entre as mais prolíficas do globo, ainda é um completo chute no escuro imaginar como vai soar a próxima novidade a emergir dos rincões gelados do norte europeu.

À primeira vista, o som da jovem Lykke Li pode até depor contra essa teoria. A cantora, saída de Estocolmo, capital da Suécia, se fez notar pela primeira vez graças a “Little Bit”, uma singela jóia de cristal que, afora seu atômico potencial pop devorador de atenções, não vai muito longe na fórmula já exercitada por alguns de seus compatriotas. Mas o lançamento de seu álbum de estréia, Youth Novels, prova que a garota sabe fazer muito mais que desenrolar um gogó encantador sobre bases instrumentais de folk.

O disco saiu no fim de janeiro, pela LL Recordings, e contou a produção de Björn Yttling - um dos membros do trio Peter, Bjorn & John, que reza a lenda tocam no Brasil ainda esse semestre. O resultado é uma reunião de doze faixas que passeiam por paisagens tão díspares quanto o folk eletro-acústico e o synth-pop trevoso à la The Knife. Entre os temas das canções, Lykke pode falar sem constrangimentos sobre um trompete que ela não consegue tirar da cabeça ou sobre amores surrealistas em terras gélidas, justificando o título do álbum e abusando de experimentalismos técnicos - como nas vozes distorcidas de “Breaking it Up”.

AÇÚCAR GÉLIDO
O vocal diabético da sueca pode dar, ao primeiro contato, a impressão equivocada de que alguns versos a mais causarão uma overdose sacarídea em ouvidos sensíveis. Mas o apelo melodramático dos vocais da cantora é compensado pelos arranjos frios e etéreos (ainda que melodiosos), letras metalingüísticas que insistem em falar sobre música (como as de “Melodies & Desire”, faixa que abre o disco) e uso homeopático de texturas sonoras excêntricas.

Se comparada a algumas de suas compatriotas como Sally Shapiro ou Robyn, a música de Lykke soa mais orgânica e menos influenciada pelo synth-pop e pela ítalo-disco dos anos 80. Os sintetizadores dificilmente predominam no arranjo, com poucas exceções como em “Complaint Department”, destaque do lado menos iluminado de Youth Novels e que não causaria espanto caso tivesse a produção assinada por Olof Dreijer.

Apesar do hit de Youth Novels ser mesmo “Little Bit” e seus versos apaixonados (”Eu apertaria o gatilho / escalaria uma montanha / pularia de um penhasco / porque você sabe, eu amo você”), há algumas outras pérolas que chamam a atenção à primeira ouvida. “Let It Fall” lembra as canções da jovem inglesa Kate Nash - ainda que com uma dose extra de originalidade - e “I’m Good. I’m Gone” aposta no pop eletrônico, com vocais distorcidos por um efeito robótico e refrão envolvente. O animado coral de “Breaking It Up” também é uma boa pedida para momentos do dia que exigem um estímulo extra à produção de serotonina.

Não se engane. Apesar da impressão emo-folk que as músicas de Lykke possam causar ao primeiro contato, Youth Novels é um álbum muito mais rico, tanto em seus temas quanto na sua sonoridade. A capacidade de se equilibrar entre o som amortizado de um Perro Del Mar e a efusão sintética de uma Annie faz da cantora sueca mais uma das boas surpresas que corroboram com a teoria de que a Escandinávia fica mesmo localizada em uma quarta dimensão musical.

 
icon for podpress  Lykke Li - Breaking it up: Play Now

 
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  1. o texto foi cedido pelo autor, em colaboração à INMWT. Acesse o post original aqui e puxe mais 2 mp3’s, na página do autor no rraurl. Mais textos de Marcus Vinícius agora no Soundscoop []

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1 Comentário to “Lykke Li”


  1. 1 no imageINMWT (Quem sou eu?)

    Olha só, aqui no Trabalho Sujo tem um remix do CSS pra faixa Little bit: http://www.gardenal.org/trabalhosujo/2008/07/lykke_li_via_cansei_de_ser_sex.html

    ;

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