
Aos novos leitores, me apresento: sou Mario Sagayama, que escrevia para o INMWT nos idos de 2007-2008. Agora, pedi ao Denis pra voltar como correspondente internacional pois estou morando em Paris. Então, vez ou outra, pintarão por aqui textos meus sobre shows no velho mundo.
Por sorte, cheguei em Paris e ganhei um ingresso para o Rock en Seine: um festival de 3 dias no Parque Saint Cloud, à margem do Sena, no sul de Paris. O line-up contou com bandas como Queens of the Stone Age, Cypress Hill, Foals, The Ting Tings, Beirut, Crystal Castles, Arcade Fire e, para alimentar nossa nostalgia, Blink 182. Mas, como meu ingresso era válido apenas para o último dia, só pude ver Beirut, The Ting Tings e Arcade Fire, respectivamente.
O festival era bastante grande – de estrutura equivalente à do Planeta Terra, talvez. Ouvi dizer que foram cerca de 30.000 ingressos vendidos, o que se torna muito interessante quando temos como o Arcade Fire como atração principal do último dia, conferindo uma credibilidade imensa aos nossos queridos canadenses.
O dia começou ensolarado, perfeito para a apresentação do Beirut. De pronto, notei como, pelo menos nesta ocasião, o som das bandas anteriores estava ótimo, podendo ser do mesmo nível das apresentações principais, o que não acontece muitas vezes no Brasil, não é? Para isso, bastaria nos lembrarmos da apresentação da Juliette and The Licks, ou mesmo do Arcade Fire, no Tim Festival. Além desta primeira impressão, fiquei muito feliz por ver como o Beirut consegue cativar a plateia toda, e não apenas seus fans. Eu mesmo não me identifico muito com sua produção, mas aproveitei cada segundo show.
Após isso, entraram os Ting Tings. Para quem os ama, já aviso: That’s not my band. Neles, não consigo ver nada além de uma grande farsa. Estavam com um look péssimo e poucas músicas conseguiram atrair a minha atenção. Tudo parecia muito artificial: banda assistente, que entrava esporadicamente fazendo pose, e dançarinos segurando placas com as palavras “work” e “dance”, dando um ar de protesto (mas tudo sem a força necessária se a coreografia remete ao Domingão do Faustão). Entretanto, algo me impressionou: eles sabem tocar, e só.
Às 21h00, os Ting Tings deram adeus tocando aquele seu hit do primeiro disco. Seria então uma hora de espera para o Arcade Fire. Todos começavam a se prevenir caminhando em direção aos palcos ou aos banheiros. Busquei chegar o mais próximo possível e comecei a acompanhar a montagem da cena: zilhões de instrumentos e duas grandes telas de projeção.

Muitos cantarolavam “Wake Up”, canção que sempre vi como espécie de síntese de sua produção e, também, como melhor escolha para abrir um show. Às 22h00, pontualmente, entraram tocando “Ready to start”, seguida por “No cars go” e “Haïti”. A sensação era incrível, todos estavam extasiados. Uma garoa começava a cair enquanto ouvíamos tocar “Modern man”, “Neighborhood #1”, “Rococo”, “We used to wait”, “The Suburbs”.
E então, a chuva, mais intensa, fazia com que todos vestissem seus gorros e capas de chuva. Neste momento, Win Butler fez uma pausa para conversar com o público. Ao contrário da Régine, que gentilmente se comunicava na língua local, agradando muito os recalques culturais franceses, Win optou por uma brincadeirinha: “E aí, gente! Vocês por acaso viram um vídeo que circula na internet dizendo que a França reembolsará o Haiti por todos os danos causados? Não? Ah! É um vídeo de um canadense que espalhou isto, mas é mentira. Mesmo assim, acho que vocês deveriam vê-lo porque a França fodeu com o mundo todo”. Um silêncio breve foi rompido por “Ocean of Noise”, que contou com a presença de membros do Beirut tocando instrumentos de sopro.
Mas, a performance, que parecia progredir com aquele gosto dramático de suas canções, teve de ser interrompida por conta da chuva, que já estava alagando o palco. Na verdade, o Arcade Fire foi obrigado a parar pela organização do evento. Imagino que isso se deveu ao contrato entre ambos, no qual, se não me engano, é de praxe haver uma cláusula que responsabiliza a organização por danos causados ao equipamento da banda. O staff do Rock en Seine, então, trocou todos os microfones dos vocalistas pelos que captavam o som da bateria, para que, em todo caso, o prejuízo fosse menor. Todo a organização visual e sonora foi coberta por grandes sacos de lixo e as telas foram desligadas.
Esperamos alguns minutos, até voltarem, acompanhados por um membro do Beirut, utilizando poucos instrumentos eletrônicos, mas dando tudo de si. Finalmente, tocaram “Wake Up”. O coro da canção era entoado por todos até explodir na palavra “adjust”, o que, para mim, é realmente entristecedor. Não sei quanto a vocês, mas não me sinto bem quando o show de uma das maiores representantes de nosso tempo é interrompido por possíveis problemas monetários e todos, após 3 dias de festival, voltam para casa cantando i guess we’ll just have to adjust.
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